A integridade das forças de segurança de Mato Grosso do Sul foi reforçada com a ação contundente do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Em uma operação denominada Operação Infiltrados, desencadeada na quinta-feira (24), o Gaeco desarticulou um esquema complexo de desvio de entorpecentes, revelando que policiais da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) estariam envolvidos na apropriação de parte de uma carga recorde de cocaína apreendida em Bela Vista, em maio de 2024. A investigação técnica e detalhada do Gaeco é crucial para assegurar a transparência e a efetividade das ações policiais, protegendo a sociedade de desvios de conduta.
Detalhes do Desvio e Ganho Ilícito
A representação formal do Gaeco à Justiça aponta indicativos de que os policiais investigados desviaram cerca de 120 quilos da droga que havia sido oficialmente apreendida. A apreensão original, registrada em 21 de maio de 2024, totalizou 643 quilos de cocaína, sendo noticiada à época como a maior apreensão da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Contudo, as apurações do Gaeco identificam que uma fração significativa desse total foi direcionada a uma organização criminosa. Segundo o Ministério Público, a comercialização dessa porção desviada da droga, cujo valor variava entre R$ 15 mil e R$ 18 mil o quilo, gerou um rendimento ilícito de “ao menos R$ 2 milhões” para os envolvidos, incluindo os agentes públicos.
A Descoberta da Trama nos Áudios Interceptados
A investigação do Gaeco utilizou interceptações telemáticas que foram decisivas para expor o modus operandi do esquema. Áudios de WhatsApp, anexados ao processo, indicam que os agentes da Denar teriam recebido a informação de que a carga real no local da apreensão em Bela Vista superava 1 tonelada de cocaína, volume que não foi integralmente registrado na ocorrência oficial. As comunicações revelaram acordos explícitos, onde os compradores da droga e a equipe da Denar envolvida pactuavam percentuais de desvio: 30% do total se o peso passasse de 1 tonelada, e 20% se fosse inferior. O material apreendido oficialmente foi “arredondado lá pra 650”, conforme um dos investigados.
Negociações e Divisão da Droga
Em áudios atribuídos a Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK e apontado como comprador da droga desviada, ele relata os contatos com as equipes policiais, mencionando propostas de pagamento de 20% e 30%. A divisão do material desviado também é detalhada, com LK afirmando: “Dá 30 quilos para cada um, mano, mas vai dividir, 120 dividido para 4, vai dar 30”. Esses diálogos explicitam o nível de articulação entre os investigados e a rede criminosa para a apropriação dos entorpecentes.
Delegacia sob Suspeita de Atuar como 'Balcão de Suprimentos'
As investigações do Ministério Público vão além, sugerindo que a delegacia funcionava como um “balcão de suprimentos” para os traficantes. As interceptações telemáticas evidenciam a proximidade entre policiais e operadores do crime, como Lucas da Silva dos Santos (LK) e Edimilson Santos Pereira. Em uma situação específica, logo após a chegada de 326 kg de cocaína à sede da Denar em dezembro de 2022, Edimilson pedia expressamente a LK que intercedesse junto aos investigadores Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva (Beto Palmeira) para desviar a carga. LK confirmou a transação, indicando a intenção de “ganhar um lucrinho” para “girar dinheiro”. Relatos colhidos pelo Gaeco ainda apontam que policiais da Denar cooptavam criminosos detidos na própria unidade para fechar acordos ilícitos. Adicionalmente, o investigador Douglas Tobias teria entregado fardos de entorpecentes apreendidos diretamente a LK, agindo sob o aval do delegado titular Hoffman D Ávila, conforme a representação do Gaeco.
Evolução Patrimonial Suspeita
A investigação também apura a evolução patrimonial discrepante dos agentes envolvidos. No mesmo ano da apreensão em Bela Vista, o delegado Hoffman D Ávila adquiriu um terreno de alto padrão em condomínio fechado por R$ 400.000,00 e realizou repasses financeiros de R$ 75.000,00 para uma empresa. Tais movimentações financeiras estão sob análise do Gaeco, que busca correlacionar os ganhos ilícitos com a aquisição de bens e movimentações financeiras incompatíveis com os rendimentos declarados.
A Operação Infiltrados reforça o compromisso das instituições de combate à corrupção em manter a integridade e a credibilidade das forças de segurança, garantindo que o trabalho de proteção à sociedade não seja comprometido por atos de desvio e ilegalidade. A ação do Gaeco é um pilar fundamental para a restauração da confiança pública e a consolidação de uma atuação policial transparente e ética.
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