A recente prisão de Amanda Maria Souza de Oliveira, de 38 anos, no estado de Santa Catarina, desencadeou a retomada de um complexo processo criminal no Rio Grande do Sul. A mulher, agora sob custódia, é investigada por um extenso histórico de fraudes, nas quais se utilizava de uma identidade falsa para se passar por adolescente, enganando famílias, instituições religiosas e serviços públicos de assistência social por anos. A ação policial em Santa Catarina permite agora que o Ministério Público gaúcho retome as diligências em uma investigação que revelou um modus operandi de longa data, impactando diretamente a segurança e a confiança nas redes de proteção social.
Esquema de Fraude e o Trabalho Investigativo
As investigações detalhadas pelo Ministério Público gaúcho apontam que Amanda Maria Souza de Oliveira apresentava-se como ‘Gabrielly da Silva Ferreira’, alegando ter entre 11 e 12 anos. Para sensibilizar suas vítimas e instituições, ela criava narrativas fictícias de abandono, violência e abusos, obtendo acolhimento e auxílio em diversas ocasiões. Essa estratégia permitiu à investigada infiltrar-se em diferentes núcleos familiares na Região Metropolitana de Porto Alegre, explorando a boa-fé e a estrutura de suporte social.
O primeiro registro documentado dessa atuação ocorreu em dezembro de 2020, em Caxias do Sul, quando a mulher procurou os serviços de assistência social sob a falsa premissa de estar desamparada no estado. A situação mobilizou a rede de proteção à infância da região, que ativou os protocolos de apoio, demonstrando a vulnerabilidade dos sistemas diante da fraude. Contudo, após um breve período, ela deixou a cidade, evitando o aprofundamento das verificações.
Meses depois, em julho de 2021, Amanda reapareceu em São Leopoldo, contatando um casal de pastores por meio das redes sociais e relatando suposta fuga de situações de violência. A família, movida pela compaixão, ofereceu acolhimento por mais de 40 dias. Ao deixar a residência, a investigada levou consigo R$ 726 e um documento de identidade de uma das moradoras, um ato que resultou em uma das acusações formais em seu nome. Em outubro do mesmo ano, em Cachoeirinha, ela repetiu o padrão, obtendo acolhimento de outra família por cerca de 25 dias, inclusive recebendo acompanhamento de órgãos públicos de proteção.
A Identificação Técnica e o Retorno da Ação Penal
O desvendamento da verdadeira identidade da investigada foi resultado da acurácia de profissionais do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre. Durante atendimentos, a equipe desconfiou da idade informada por ‘Gabrielly’ e identificou notáveis semelhanças com um caso previamente descrito em um artigo científico. Essa perspicácia clínica impulsionou uma série de verificações que, complementadas por exames papiloscópicos, confirmaram sem margem de erro que a suposta adolescente era, na verdade, Amanda Maria Souza de Oliveira. Esse trabalho técnico foi crucial para expor a fraude.
O Ministério Público revela que a mulher adota versões similares da mesma história há mais de uma década, atuando em diferentes estados brasileiros para conseguir acolhimento e assistência. Após os fatos investigados no Rio Grande do Sul, Amanda ficou presa por aproximadamente seis meses. Contudo, o processo criminal foi suspenso após sua liberação e a subsequente dificuldade em localizá-la. A recente prisão em Santa Catarina, portanto, representa um avanço significativo, permitindo ao Ministério Público gaúcho solicitar a retomada imediata da ação penal e a responsabilização pelos atos fraudulentos.
A defesa da investigada informou que analisa os detalhes do caso e se manifestará no processo. Além disso, a Justiça de Santa Catarina determinou a abertura de um procedimento específico para a avaliação da sanidade mental da suspeita, garantindo todos os ritos legais. A ação coordenada das forças de segurança e do Ministério Público reforça o compromisso em desarticular esquemas que exploram a vulnerabilidade social e os sistemas de proteção.
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