Às margens do rio Mamoré, que demarca a fronteira entre Brasil e Bolívia, a cidade de Guayaramerín emergiu como um ponto crítico na expansão de facções criminosas brasileiras. Este local estratégico, com intenso fluxo de viajantes sem controle migratório efetivo, serve como porta de entrada para grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que estendem suas operações e a violência para o território boliviano.
Moradores locais, como o pedreiro aposentado Donald Somoza, de 75 anos, relatam a ausência de fiscalização nos pontos de desembarque das lanchas, evidenciando uma vulnerabilidade que é explorada pelas organizações criminosas. Apesar da aparente tranquilidade diurna, a população de Guayaramerín denuncia uma escalada de insegurança impulsionada pela disputa de corredores para o tráfico de cocaína em direção ao Atlântico.
Escalada da Violência Fronteiriça Exige Resposta Firme
A Bolívia, historicamente considerada um país seguro, enfrenta um “fenômeno bastante novo”, conforme aponta o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado. A dinâmica anterior de uma “pax mafiosa”, onde quadrilhas de narcotraficantes operavam com certa permissividade do Estado para evitar confrontos violentos, foi rompida. A ação das facções brasileiras alterou esse cenário, intensificando a brutalidade dos crimes.
Nas últimas semanas, a Bolívia foi surpreendida por uma dúzia de homicídios atribuídos a essas facções, chocando a nação com a crueldade dos atos. Entre os casos, destacam-se a chacina de uma família, a descoberta de corpos decapitados e o assassinato de um agente da Polícia. O senhor Somoza testemunhou um assassinato com mais de 80 tiros em plena praça central, indicando a ousadia dos criminosos em seus “acertos de contas”.
A professora Ariana Roca, que transita entre as cidades fronteiriças, observa que os crimes ocorrem com maior frequência, por vezes, “até debaixo do nariz dos policiais”. Os dados do Ministério do Governo boliviano reforçam essa percepção, registrando 774 homicídios entre janeiro e setembro de 2025, um aumento significativo em comparação com os 325 no mesmo período do ano anterior. Além dos homicídios, a população experimenta uma crescente sensação de insegurança devido a assaltos à mão armada, sequestros e outras agressões. O agente de câmbio Adhemar Zapata, por exemplo, foi atacado duas vezes, sendo um dos agressores identificado como brasileiro, segundo investigações.
Operação Policial Reforça Segurança e Neutraliza Lideranças Criminosas
Diante da escalada da criminalidade, o governo do presidente Rodrigo Paz atribui a propagação do problema a administrações anteriores. Em resposta, a gestão Paz tem intensificado o combate às organizações criminosas. Desde o início de sua administração, em novembro, as forças de segurança bolivianas capturaram 17 chefes de quadrilhas criminosas internacionais, um resultado operacional que visa desestruturar as redes de comando do crime organizado na região.
A atuação das forças de segurança foi reforçada com o lançamento de um plano de segurança em Guayaramerín, articulado para aumentar a presença policial nas fronteiras. A iniciativa prevê a troca de informações de inteligência com o Brasil, visando uma ação conjunta para identificar e capturar criminosos foragidos de ambos os lados da fronteira. Essas ações demonstram um esforço técnico e integrado para neutralizar a capacidade operacional das facções.
Desafios e o Futuro da Segurança na Fronteira
Apesar das ações policiais, a perspectiva de construção de uma ponte ligando Brasil e Bolívia em Guayaramerín, parte de um futuro corredor viário até o Pacífico no Peru, gera apreensão entre os moradores. Embora a obra possa dinamizar o comércio, como aponta o agente de câmbio Zapata, há o temor de que “as quadrilhas, as máfias de roubo, possam atravessar” com maior facilidade, conforme manifesta a vendedora Yestin Durán. Essa preocupação é corroborada pelo chefe de polícia da localidade, coronel Johnny Rivas, que admite que a violência “vai aumentar” e exigirá o incremento dos efetivos.
Para o especialista Joaquín Chacín, embora contingentes policiais na fronteira possam dissuadir a violência, o combate efetivo ao crime organizado demanda atacar sua estrutura econômica, investigando a lavagem de dinheiro e os enriquecimentos ilícitos. A matéria destaca a complexidade do cenário e a necessidade de um plano de longo prazo para enfrentar o desafio imposto pela expansão das facções brasileiras na Bolívia.
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