A região da Serra do Amolar, no Pantanal, registra o falecimento de Vicente Manoel da Silva, o último falante nativo da língua Guató. Conhecido como Seu Vicente, o ancião de 81 anos faleceu em sua residência remota, a mais de seis horas de barco de Corumbá, rio Paraguai acima. Uma perda significativa para o patrimônio cultural e linguístico do Brasil.
Acionamento e Constatação do Óbito
Nesta terça-feira, 4 de junho, membros da comunidade notaram a ausência do ancião em suas atividades cotidianas. Ao verificar a residência, Seu Vicente foi encontrado desacordado. O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, com base na Barra do São Lourenço, foi acionado. Os profissionais se deslocaram e constataram o falecimento.
O Legado de um Povo Canoeiro e Símbolo de Resistência
Os Guató, etnia tradicional pantaneira, são conhecidos como ‘povo canoeiro’, com presença documentada desde o século XVI. Entre as décadas de 1950 e 1960, a etnia foi declarada extinta no país. Estudos apontam que preconceito e violência levaram os Guató a não se declararem. A revisão desse cenário ocorreu no final da década de 1970, com reconhecimento de comunidades em Corumbá e outras áreas.
A Vida e o Conhecimento de Seu Vicente
Nascido em 30 de maio de 1945, Vicente Manoel da Silva, falante nativo Guató por descendência, tornou-se símbolo de resistência e referência da tradição. Sua figura obteve reconhecimento nacional e internacional via documentários e reportagens. Seu Vicente residia isoladamente às margens do rio São Lourenço, entre a Barra do São Lourenço e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense. Ele mantinha vida autossuficiente, com pesca e caça diárias, e só acessou energia elétrica após 2022.
O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) destacou a importância de Seu Vicente. Ele preservou um estilo de vida ancestral, utilizando ferramentas tradicionais como canoa de um pau só, remo, zinga, arpão, vara de pesca e zagaia. Conhecia também a execução do ganzá e da viola de cocho. Uma de suas canoas está exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, em Corumbá.
Nos últimos anos, Seu Vicente dedicou-se a ensinar a língua Guató a linguistas e professores, visando a preservação cultural. A página Documenta Pantanal divulgou vídeo onde ele compartilhou nomenclatura de elementos pantaneiros na língua ancestral.
Esforços Atuais para a Preservação da Língua
O legado de Seu Vicente sustenta as atuais iniciativas. A Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho – ‘Toghopanaã’, na Aldeia Uberaba Guató, busca consolidar o ensino da língua. Contudo, estudos da UFMS apontam desafios na perpetuação do idioma, pela carência de estrutura linguística e materiais didáticos.
Procedimentos para o Sepultamento
Informações oficiais sobre o sepultamento de Vicente Manoel da Silva aguardam confirmação. O Corpo de Bombeiros de Corumbá não confirmou a remoção do corpo para a cidade. O IHP informou que a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) deve levar uma urna funerária à região onde o ancião residia. O sepultamento ocorrerá nesse território, próximo aos locais de sepultamento de sua mãe, Júlia, e de um de seus tios, José, conforme registros do Instituto Homem Brasileiro.
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