O que inicialmente foi divulgado como a maior apreensão de cocaína da história do Brasil, durante a Operação Timber Shield, não se confirmou após rigorosa análise pericial. Um laudo da Perícia Criminal da Polícia Federal, concluído em 17 de junho, apontou resultados negativos para a presença da substância entorpecente na carga retida em Corumbá (MS) e Cáceres (MT).
A ação, que ocorreu em 21 de junho, envolveu a apreensão de 260 toneladas de carga. A suspeita original era de que entre 20 e 50 toneladas de cocaína estariam impregnadas em toras de madeira ou diluídas em composto orgânico, mas essa hipótese foi descartada pelos exames técnicos.
A Operação Timber Shield e a Suspeita Inicial
A Operação Timber Shield mobilizou uma força-tarefa integrada pela Receita Federal, Exército Brasileiro, Polícia Federal, e contou com a cooperação dos Estados Unidos e da Aduana da Bolívia. A apreensão inicial de oito carretas com toras de aroeira, procedentes da Bolívia, ocorreu em um blitz, com quatro veículos parados em Cáceres, Mato Grosso, e outros quatro em Corumbá, Mato Grosso do Sul.
Na ocasião, as autoridades responsáveis pela apreensão levantaram a possibilidade de cocaína líquida ou diluída no composto orgânico, impregnada nas toras de madeira. A suspeita técnica era de uma possível contaminação ou aplicação da substância proscrita na superfície da madeira.
A Rigorosa Análise da Perícia Criminal Federal
O laudo pericial, produzido pela Polícia Federal de Mato Grosso do Sul sob o número 27589/26, atesta que “Todos os testes e exames instrumentais descritos resultaram negativos para a presença de cocaína impregnada nas amostras de madeira encaminhadas a exame pericial”. Este resultado foi revelado na tarde desta quarta-feira, 22 de junho.
O trabalho dos peritos criminais federais iniciou-se dois dias após a blitz. Foram submetidos a reagentes químicos três fragmentos sólidos de madeira comercial, secos, que apresentavam características anatômicas macroscópicas semelhantes. Os retalhos de aroeira foram cuidadosamente analisados para identificar qualquer indício de substâncias entorpecentes.
Estratégias Avançadas de Ocultação de Entorpecentes
A ocultação de cocaína em diferentes materiais é uma estratégia conhecida e recorrente de organizações criminosas para contornar a fiscalização. Relatórios como o Oropesa (Manual Internacional de Investigação e Controle Químico Antinarcóticos de La Paz), citado no laudo, indicam que as técnicas de mascaramento evoluíram, a ponto de mitigar a eficácia de cães farejadores e testes reagentes preliminares.
A Europol (Agência da União Europeia para a Cooperação) também aponta essa tendência, descrevendo a adulteração e inserção de substâncias em alimentos, plásticos e produtos têxteis. No âmbito da perícia químico-forense, materiais como artefatos têxteis, suportes resinosos (borrachas, polivinilpirrolidona – PVP) e suportes celulósicos (papel) são frequentemente submetidos a exame pericial, demonstrando a complexidade das investigações.
Características da Aroeira e a Conclusão Pericial
Os peritos criminais observaram atentamente os fragmentos de madeira, buscando verificar características naturais e indícios macroscópicos de adsorção de substâncias. No entanto, o laudo pericial destacou as propriedades da aroeira. Essa madeira é conhecida por sua alta durabilidade, extrema densidade e resistência a ataques de brocas, fungos e cupins, sendo quase imune ao apodrecimento.
Devido à sua densidade, a aroeira possui alta resistência à absorção de umidade, o que, conforme argumentaram os peritos, torna o material pouco elegível para ser utilizado como matriz de absorção de soluções contendo cocaína. Os exames foram realizados no laboratório de Química Forense do Setor Técnico-Científico e no laboratório do Instituto de Análises Laboratoriais Forense (IALF) da Coordenadoria Geral de Perícias.
Após a primeira etapa de testes, os peritos da PF se deslocaram entre 30 de junho e 3 de julho a Corumbá para acompanhar a movimentação da carga e realizar exames adicionais, com coleta de novas amostras para envio ao Instituto Nacional de Criminalística. Os caminhões com a aroeira encontravam-se no Porto Seco dos Armazéns Gerais Alfandegados de Mato Grosso do Sul (Agesa), localizado no Anel Viário de Corumbá. A inspeção em campo contou com o auxílio de cães farejadores.
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